Sábado, 31 de Março de 2007

O SAPATEIRO POBRE

O SAPATEIRO POBRE

 
Havia um sapateiro que trabalhava à porta de casa e todo o santíssimo dia cantava. Tinha muitos filhos, que andavam rotinhos pela rua, pela muita pobreza, e à noite, enquanto a mulher fazia a ceia, o homem puxava da viola e tocava os seus batuques muito contente.
 
Ora defronte do sapateiro morava um ricaço, que reparou naquele viver e teve pelo sapateiro tal compaixão que Ihe mandou dar um saco de dinheiro, porque o queria fazer feliz.
 
O sapateiro lá ficou admirado. Pegou no dinheiro e à noite fechou-se com a mulher para o contarem. Naquela noite, o pobre já não tocou viola. As crianças, como andavam a brincar pela casa, faziam barulho e levaram-no a errar na conta, e ele teve de lhes bater. Ouviu-se uma choradeira, como nunca tinham feito quando estavam com mais fome. Dizia a mulher:
 
- E agora, que havemos nós de fazer a tanto dinheiro?
 
- Enterra-se!
 
- Perdemos-lhe o tino. É melhor metê-lo na arca.
 
- Mas podem roubá-lo! O melhor é pô-lo a render.
 
- Ora, isso é ser onzeneiro!
 
- Então levantam-se as casas e fazem-se de sobrado e depois arranjo a
oficina toda pintadinha.
 
- Isso não tem nada com a obra! O melhor era comprarmos uns campinhos.
Eu sou filha de lavrador e puxa-me o corpo para o campo.
 
- Nessa não caio eu.
 
- Pois o que me faz conta é ter terra. Tudo o mais é vento.
 
As coisas foram-se azedando, palavra puxa palavra, o homem zanga-se, atiça duas solhas na mulher, berreiro de uma banda, berreiro da outra, naquela noite não pregaram olho.
 
O vizinho ricaço reparava em tudo e não sabia explicar aquela mudança.
Por fim, o sapateiro disse à mulher:
 
- Sabes que mais? O dinheiro tirou-nos a nossa antiga alegria! O melhor era ir levá-lo outra vez ao vizinho dali defronte, e que nos deixe cá com aquela pobreza que nos fazia amigos um do outro!
 
A mulher abraçou aquilo com ambas as mãos, e o sapateiro, com vontade de recobrar a sua alegria e a da mulher e dos filhos, foi entregar o dinheiro e voltou para a sua tripeça a cantar e a trabalhar como de costume.
publicado por escrevinhando às 22:09
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Sábado, 24 de Março de 2007

Pensa nisto.

Seis homens ficaram bloqueados numa caverna por uma avalanche de neve.
Teriam que esperar até o amanhecer para receber socorro. Cada um deles
trazia um pouco de lenha e havia uma pequena fogueira ao redor da qual
eles se aqueciam.

Se o fogo apagasse - eles sabiam –, todos morreriam de frio antes que o
dia clareasse. Chegou a hora de cada um colocar sua lenha na fogueira.
Era a única maneira de poderem sobreviver.

O primeiro homem era um racista. Ele olhou demoradamente para os outros
cinco e descobriu que um deles tinha a pele escura. Então ele raciocinou
consigo mesmo:

"Aquele negro! Jamais darei minha lenha para aquecer um negro." E
guardou-as protegendo-as dos olhares dos demais.

O segundo homem era um rico avarento. Ele estava ali porque esperava
receber os juros de uma divida. Olhou ao redor e viu um círculo em torno
do fogo bruxuleante, um homem da montanha, que trazia sua pobreza no
aspecto rude do semblante e nas roupas velhas e remendadas. Ele fez as
contas do valor da sua lenha e enquanto mentalmente sonhava com o seu
lucro, pensou:

"Eu, dar a minha lenha para aquecer um preguiçoso?"

O terceiro homem era o negro. Seus olhos faiscavam de ira e
ressentimento. Não havia qualquer sinal de perdão ou mesmo daquela
superioridade moral que o sofrimento ensinava. Seu pensamento era muito
prático:

"É bem provável que eu precise desta lenha para me defender. Além disso,
eu jamais daria minha lenha para salvar aqueles que me oprimem.” E
guardou suas lenhas com cuidado.

O quarto homem era o pobre da montanha. Ele conhecia mais do que os
outros os caminhos, os perigos e os segredos da neve. Ele pensou:

" Esta nevasca pode durar vários dias, vou guardar minha lenha."

O quinto homem parecia alheio a tudo. Era um sonhador. Olhando fixamente
para as brasas. Nem lhe passou pela cabeça oferecer da lenha que
carregava. Ele estava preocupado demais com suas próprias visões (ou
alucinações?) para pensar em ser útil.

O último homem trazia nos vincos da testa e nas palmas calosa das mãos,
os sinais de uma vida de trabalho. Seu raciocínio era curto e rápido.

"Esta lenha é minha. Custou o meu trabalho. Não darei a ninguém nem
mesmo o menor dos meus gravetos."

Com estes pensamentos, os seis homens permaneceram imóveis. A última
brasa da fogueira se cobriu de cinzas e finalmente apagou. Ao alvorecer
do dia, quando os homens do Socorro chegaram à caverna encontraram seis
cadáveres congelados, cada qual segurando um feixe de lenha.

Olhando para aquele triste quadro, o chefe da equipe de Socorro disse:

"O frio que os matou não foi o frio de fora, mas o frio de dentro."



Autor Desconhecido

publicado por escrevinhando às 19:01
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Sexta-feira, 23 de Março de 2007

Duras, mas inequívocas, verdades!

 

Diz Miguel Esteves Cardoso 

 «Primeiro, as verdades. 

 O Norte é mais Português que Portugal. 
As minhotas são as raparigas mais bonitas do País.
 O Minho é a nossa província mais estragada e continua a ser a mais bela.
 As festas da Nossa Senhora da Agonia são as maiores e mais impressionantes 
que já se viram.
 
Viana do Castelo é uma cidade clara. Não esconde nada. Não há uma Viana 
secreta. Não há outra Viana do lado de lá. Em Viana do Castelo está tudo à
 vista. A luz mostra tudo o que há para ver. É uma cidade verde-branca. 
Verde-rio e verde-mar, mas branca. Em Agosto até o verde mais escuro, que se 
vê nas árvores antigas do Monte de Santa Luzia, parece tornar-se branco
 ao olhar. Até o granito das casas.
 
Mais verdades.
 
No Norte a comida é melhor.
 
O vinho é melhor.
 
O serviço é melhor.
 
Os preços são mais baixos.
 
Não é difícil entrar ao calhas numa taberna, comer muito bem e pagar uma 
ninharia.
 
Estas são as verdades do Norte de Portugal.
 
Mas há uma verdade maior.
 
É que só o Norte existe. O Sul não existe.
 
As partes mais bonitas de Portugal, o Alentejo, os Açores, a Madeira, 
Lisboa, et caetera, existem sozinhas. O Sul é solto. Não se junta.
 
Não se diz que se é do Sul como se diz que se é do Norte. 
 
No Norte dizem-se e orgulham-se de se dizer nortenhos. Quem é que se 
identifica como sulista?
 
No Norte, as pessoas falam mais no Norte do que todos os portugueses juntos 
falam de Portugal inteiro.
 
Os nortenhos não falam do Norte como se o Norte fosse um segundo país. 
 
Não haja enganos.
 
Não falam do Norte para separá-lo de Portugal. 
 
Falam do Norte apenas para separá-lo do resto de Portugal. 
 
Para um nortenho, há o Norte e há o Resto. É a soma de um e de outro que 
constitui Portugal.
 
Mas o Norte é onde Portugal começa.
 
Depois do Norte, Portugal limita-se a continuar, a correr por ali abaixo.
 
Deus nos livre, mas se se perdesse o resto do país e só ficasse o Norte, 
Portugal continuaria a existir. Como país inteiro. Pátria mesmo, por muito
 pequenina. No Norte.
 
Em contrapartida, sem o Norte, Portugal seria uma mera região da Europa. 
Mais ou menos peninsular, ou insular. 
 
É esta a verdade.
 
Lisboa é bonita e estranha mas é apenas uma cidade. O Alentejo é especial 
mas ibérico, a Madeira é encantadora mas inglesa e os Açores são um caso à
 parte. Em qualquer caso, os lisboetas não falam nem no Centro nem no Sul - 
falam em Lisboa. Os alentejanos nem sequer falam do Algarve - falam do
 Alentejo. As ilhas falam em si mesmas e naquela entidade incompreensível a 
que chamam, qual hipermercado de mil misturadas, Continente. 
 
No Norte, Portugal tira de si a sua ideia e ganha corpo. Está muito 
estragado, mas é um estragado português, semi-arrependido, como quem não
 quer a coisa. 
 
O Norte cheira a dinheiro e a alecrim. 
 
O asseio não é asséptico - cheira a cunhas, a conhecimentos e a arranjinho. 
Tem esse defeito e essa verdade.
 
Em contrapartida, a conservação fantástica de (algum) Alentejo é impecável, 
porque os alentejanos são mais frios e conservadores (menos portugueses)
 nessas coisas.
 
O Norte é feminino.
 
O Minho é uma menina. Tem a doçura agreste, a timidez insolente da mulher 
portuguesa. Como um brinco doirado que luz numa orelha pequenina, o Norte dá 
nas vistas sem se dar por isso.
 
As raparigas do Norte têm belezas perigosas, olhos verdes-impossíveis, 
daqueles em que os versos, desde o dia em que nascem, se põem a escrever-se 
sozinhos.
 
Têm o ar de quem pertence a si própria. Andam de mãos nas ancas. Olham de 
frente. Pensam em tudo e dizem tudo o que pensam. Confiam, mas não dão 
confiança. Olho para as raparigas do meu país e acho-as bonitas e honradas, 
graciosas sem estarem para brincadeiras, bonitas sem serem belas, erguidas
 pelo nariz, seguras pelo queixo, aprumadas, mas sem vaidade. Acho-as 
verdadeiras. Acredito nelas. Gosto da vergonha delas, da maneira como coram 
quando se lhes fala e da maneira como podem puxar de um estalo ou de uma 
panela, quando se lhes falta ao respeito. Gosto das pequeninas, com o cabelo
 puxado atrás das orelhas, e das velhas, de carrapito perfeito, que têm os 
olhos endurecidos de quem passou a vida a cuidar dos outros. Gosto dos 
brincos, dos sapatos, das saias. Gosto das burguesas, vestidas à maneira, de 
braço enlaçado nos homens. Fazem-me todas medo, na maneira calada como 
conduzem as cerimónias e os maridos, mas gosto delas.
 
São mulheres que possuem; são mulheres que pertencem. As mulheres do Norte 
deveriam mandar neste país. Têm o ar de que sabem o que estão a fazer. Em 
Viana, durante as festas, são as senhoras em toda a parte. Numa procissão, 
numa barraca de feira, numa taberna, são elas que decidem silenciosamente.
 
Trabalham três vezes mais que os homens e não lhes dão importância especial. 
 
Só descomposturas, e mimos, e carinhos. 
 
O Norte é a nossa verdade. 
 
Ao princípio irritava-me que todos os nortenhos tivessem tanto orgulho no 
Norte, porque me parecia que o orgulho era aleatório. Gostavam do Norte só 
porque eram do Norte. Assim também eu. Ansiava por encontrar um nortenho que 
preferisse Coimbra ou o Algarve, da maneira que eu, lisboeta, prefiro o
 Norte. Afinal, Portugal é um caso muito sério e compete a cada português 
escolher, de cabeça fria e coração quente, os seus pedaços e pormenores. 
Depois percebi.
 
Os nortenhos, antes de nascer, já escolheram. Já nascem escolhidos. Não 
escolhem a terra onde nascem, seja Ponte de Lima ou Amarante, e apesar de as 
defenderem acerrimamente, põem acima dessas terras a terra maior que é o "O 
Norte".
 
Defendem o "Norte" em Portugal como os Portugueses haviam de defender 
Portugal no mundo. Este sacrifício colectivo, em que cada um adia a sua 
pertença particular - o nome da sua terrinha - para poder pertencer a uma 
terra maior, é comovente. 
 
No Porto, dizem que as pessoas de Viana são melhores do que as do Porto. Em 
Viana, dizem que as festas de Viana não são tão autênticas como as de Ponte 
de Lima. Em Ponte de Lima dizem que a vila de Amarante ainda é mais bonita. 
O Norte não tem nome próprio. Se o tem não o diz. Quem sabe se é mais Minho
 ou Trás-os- Montes, se é litoral ou interior, português ou galego? Parece 
vago. Mas não é. Basta olhar para aquelas caras e para aquelas casas, para
 as árvores, para os muros, ouvir aquelas vozes, sentir aquelas mãos em cima 
de nós, com a terra a tremer de tanto tambor e o céu em fogo, para 
adivinhar. 
 
O nome do Norte é Portugal. Portugal, como nome de terra, como nome de nós 
todos, é um nome do Norte. Não é só o nome do Porto. É a maneira que têm e
 dizer "Portugal" e "Portugueses". No Norte dizem-no a toda a hora, com a 
maior das naturalidades. Sem complexos e sem patrioteirismos. Como se fosse
 só um nome. Como "Norte". Como se fosse assim que chamassem uns pelos 
outros. Porque é que não é assim que nos chamamos todos?».

 

publicado por escrevinhando às 19:12
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Quinta-feira, 15 de Março de 2007

Dias Felizes

Dias Felizes

 

 

São 6:30 da manhã, de uma manhã inicialmente fria, como o são quase todas as manhãs de um qualquer mês de Março.

Faísca, a minha gata, salta para cima do ederdon que aconchega a cama onde ambos passamos mais uma das muitas noites das nossas vidas e com uma das patas faz o favor de acordar-me; são horas não só de começar mais um dia de trabalho como, também, de lhe dar a paparoca matinal que lhe dará forças para enfrentar mais um dos muitos dias da sua existência de já dois anos e de grande companheira que tem sido.

Quanto a mim, dedico-me às tarefas triviais de um ser diferente que se pauta por ser igual a muitos outros seres diferentes que fazem desta vida uma loucura normal: fazer a cama, separar e escolher a roupa do dia anterior pela que pretendo usar neste dia, fazer as minhas necessidades matinais, tomar o meu duche três em um: lavar os dentes fazer a barba e o duche propriamente dito; pois que este porco humanóide marca a diferença do primeiro pelo asseio e apresentação que faz dele um Ser Sublime.

Terminados que estão estes perliminares é chegada a hora da, minha, pequena refeição matinal, a qual a não ser feita quase não me restam forças de uma noite mal dormida para fazer o percurso matinal da pacata vila ribatejana onde resido para o reboliço da grande metrópele que é a cidade onde, ainda, exerço a minha actividade profissional.

A saída do aconchego do meu refúgio ribatejano dá-se quarenta e cinco minutos depois, altura em que me dirijo em direcção ao já habitual ponto de paragem do autocarro que fará o favor – favor não!- é pago e não é pouco! – de transportar-me até quase ao coração da grande metrópele, sem que antes, no percurso que faço do meu refúgio até ao ponto de paragem do bus – não deixe de passar pelo simpático e acolhedor café do Luís para um trivial “simbalino” e dois dedos de conversa para soltar a língua perra ainda de uma noite de sono mal dormida.

A chegada à paragem faz-se ainda com a dita completamente deserta; afinal que tem a mobilidade mais condicionada sou eu, pelo que sempre me antecipo para evitar não só os percauços da caminhada de um pedestre normal que se vai orientando pelo uso e abuso da sua companheira de metal e fibra de vidro que é a sua bengala branca: símbolo da independência e autonomia de qualquer ser humano privado daquilo que seria a sua visão regular.

Os demais companheiros desta viagem diária e quase interminavelmente constante vão chegando…os naturais “olás” vão se escutando à medida que vão chegando, dentro de poucos instantes, ainda antes da chegada do nosso “bus” começa a pairar no ar a já vulgar miscelénia de odores, cada um exaltando um pouco da personalidade de quem os tendo escolhido para “imagem de marca” se viu reflectido no perfume que usa.

O “bus” chega, não sem que antes não tivessem já passado outros tantos, mas que não eram o que todos esperámos; ordeiramente cada um dos que o esperavam entram um a um…ums mostrando o seu título de transporte mensalmente válido, outros adquirindo o sazonal bilhete de uma fugaz ida à grande metrópele para tratar de qualquer pendente da vida normal de cada um, e a “guerra dos odores” repete-se, muitas vezes sem quartel, já que a exiguidade do espaço, a muito maior proximidade das pessoas e a ventilação menos eficaz que a de um espaço aberto lhe dá azo para existir; mas que em nada prejudica a presença de todos, antes, às vezes, até nos aproxima: tal como as conversas dos passageiros dos lugares da frente com o motorista, amigo, vizinho ou mesmo conhecido da localidade de cada um.

O autocarro vai serpenteando pelas exíguas artérias da localidade, ao som de uma qualquer estação radiofónica, recolhendo outros que, como nós, estão à sua espera noutras tantas paragens bem antes que este entre, finalmente, na via-rápida que nos levaa até à auto-estrada onde, então, transporemos esse imenso e largo rio que separa ambas as margens; sem que antes não deixemos de vislumbrar os campos verdes deste cantinho Ribatejano vislumbrando ao longe e ao perto uma manta de retalhos de antigas salinas hoje poiso e ninho de aves migratórias tão belas como o são os flamingos branco e cor-de-rosa: o que empresta à paisagem deste lado do grande rio rara beleza.

Já no enorme tabuleiro da ponte, se colocarmos os olhos na linha do horizonte, somos presenteados com a brandura e brancura da silhueta do casario da grande metrópele; desde as zonas mais antigas e recôndidas às fachadas vítricas e espelhadas de um espaço novo e amplo junto ao rio: pedaços brilhantemente reaproveitados de uma megalómana exposição mundial que não tendo sido tão excepcional quanto a sua megalomania permitiu, assim, o nascer – ou renascer! – um espaço citadino que era já de si morto de tanta poluição e ababdono, de rara beleza e de comunhão da cidade com o rio.

Aqui chegado, o autocarro serpenteia pelas ex-alamedas ora reabilitadas da citada exposição onde se nos depara o primeiro ponto de partida para os afazeres de cada um de nós por entre esta imensa teia de percursos e de lugares estáticos para os quais todos os seus passageiros se dirigem depois desta curta viagem de rara beleza.

Eu, pela minha parte, hoje voi mascarar-me de toupeira; pois que tendo necessidade de tratar de um pequeno assunto de natureza particular optei por descer aos subterrâneos citadinos e apanhando outro meio de transporte, o meto – como dizem os alfacinhas mais velhos e de boas famílias – e rumar ao meu destino habitual – o meu local de trabalho – de uma outra forma, também, prazenteira, já que também nos é dada outra forma de Sentir a Cidade bem como as gentes – qual formigueiro! – que como eu desaguam nela para dar a si próprios uma razão de viver sobrevivendo a tudo quanto esta sociedade de hoje teima em criar complicando ainda mais o que já de si, em muitíssimos casos!, é quase absolultamente caótico.

Ordeiramente lá me dirigi ao cais de embarque do metro, como eu uma milésima parte deste formigueiro citadino aguardava a chegada da tão desejada composição para alcançar um lugar vazio para poisar o outro extremo da coluna vertebral e, assim, conseguir chegar ao emprego ou aos seus afazeres de forma mais tranquila e sossegada para não estragar já o que nascido pouco tempo já era: mais um dia igual a tantos outros vividos e vivenciados até esta data.

Eu entrei na dita composição sem que os pés se me tocassem no chão; não porque fosse um pássaro ou uma criança de colo, mas porque o magote de gente que se afunilou diante da porta desta à frente da qual eu já me havia colocado, estrategicamente, para que, dada a visibilidade da minha Bengala Branca, me fosse facultado um lugar sentado que me permitisse contornar a minha falta de equilíbrio em ambientes instáveis e de muito mmovimento.

Assim que entrei, um cavalheiro parte de um jovem e encantador casal de executivos logo se prontificou a facultar-me o seu lugar permitindo, assim, que tal como a sua jovem e encantadora companhia percorresse esse trajecto de uma forma mais tranquila, serena e descansada.

Ao meu lado, junto á janela exterior da linha, um outro casal dialogava silenciosamente e apenas e só com o movimento das mãos, do corpo e das expressões faciais de ambos e de cada um; o que, muitas vezes, levava todos aqueles que nos envolviam a pensar com os seus botões como deve ser ainda assim interessante viver-se envolto no silêncio, físico, e conseguir Ser-se Pessoa activa, participativa e Feliz fazendo parte de um mundo, que sendo também nosso, não produz ruídos e que nem por isso deixa de comunicar e existir.

A minha estação de destino avizinhava-se, e, com ela, a minha curiosidade em saber se seria eu capaz de também entrar, ainda que momentaneamentem nesse mundo, e então, esboço um tímido gesto na sua própria língua com o qual fiz a minha saudação matinal de “bom dia”, pedi desculpa por interromper o diálogo e +erguntei ao casal, sempre em L.G.P., como se chamavam, onde residiam e a que Associação de Surdos pertenciam, ao que eles, estupfactos por terem sido abordados por alguém que não podendo ver e distinguir muito bem a sua língua visual se absteve de qualquer ponta de timidez e procurou estabelecer um pequeno diálogo.

Rapidamente nos despedimos com as naturais perguntas dos nossos nomes, onde trabalhávamos e a que associação de surdos/cegos pertencíamos e, nelas, quem conheciamos.

Assim terminou uma das muitas longas viagens diárias, de uma forma tal que mais parecia ter durado dez minutos; mas que terão sido os mais saborosos dez minutos daquele dia ou até das nossas vidas!

 

“Tu és surdo e eu sou cego, mas,

se dermos as mãos, entendernos emos.”

Kalil Gibran – in “O Profeta

 

José Pedro Amaral

13.03.2007

publicado por escrevinhando às 13:01
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