Segunda-feira, 24 de Dezembro de 2007

Noite de Natal

Era o dia 24 de Dezembro, um dos dias mais curtos do ano, e ele caminhava com grande pressa, pois queria aproveitar as poucas horas de luz.

Antes da meia noite, sem falta, tinha de chegar à sua casa na clareira de bétolas.

E ao fim de três quilómetros de marcha, cheio de confiança, penetrou na grande floresta. A alegria de estar já tão perto dos seus fazia-lhe esquecer o cansaço e o frio.

Mas agora, depois de quase dois anos de ausência, a floresta parecia-lhe  fantástica e estranha. Tudo estava imóvel, mudo, suspenso. E o silêncio e a solidão pareciam assustadores e desmedidos.

O inverno tinha despido as árvores, e os ramos nus desenhavam-se negros, esbranquiçados, avermelhados. Só os pinheiros cobertos de agulhas continuavam verdes. Eram daqueles pinheiros do Norte que se chamam abetos, que são largos em baixo e afiados em cima, que têm o tronco coberto de ramos desde o chão e crescem em forma de cone da terra para o céu.

A neve apagava todos os rastos, todos os careiros. E através do labirinto do arvoredo o Cavaleiro procurava o seu caminho. O seu plano era chegar ainda com dia a uma pequena aldeia de lenhadores que ficava perto do rio que passava junto da sua casa. Uma vez encontrado esse rio, mesmo de noite, não se podia perder, pois o curso gelado o guiaria.

À medida que avançava, os seus ouvidos iam-se habituando ao silêncio e começavam a distinguir ruídos e estalidos. Era um esquilo saltando de ramo em ramo, uma raposa que fugia na neve. Depois ao longe, entre os troncos das árvores, avistou um veado. Caminhava em direcção ao nascente, e ao fim de uma hora encontrou na neve rastos frescos de trenós.

- Bom sinal – pensou ele, não me enganei no caminho.

De facto, seguindo esses rastos, depressa chegou à pequena aldeia de lenhadores.

Todas as portas se abriram, e os homens da floresta reconheceram o Cavaleiro, que rodearam com grandes saudações.

Este penetrou na cabana maior e sentou-se ao pé do lume enquanto os moradores lhe serviam pão com mel e leite quente.

- Já pensávamos que não voltasse mais – disse um velho de grandes barbas.

- Demorei mais do que queria – respondeu o peregrino. – Mas graças a Deus cheguei a tempo. Hoje antes da meia noite estarei em minha casa.

 

 

 

 

                         Sophia de Mello Breyner Andresan

                                                                                                               in O Cavaleiro da Dinamarca

publicado por escrevinhando às 16:38
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