Sexta-feira, 23 de Março de 2007

Duras, mas inequívocas, verdades!

 

Diz Miguel Esteves Cardoso 

 «Primeiro, as verdades. 

 O Norte é mais Português que Portugal. 
As minhotas são as raparigas mais bonitas do País.
 O Minho é a nossa província mais estragada e continua a ser a mais bela.
 As festas da Nossa Senhora da Agonia são as maiores e mais impressionantes 
que já se viram.
 
Viana do Castelo é uma cidade clara. Não esconde nada. Não há uma Viana 
secreta. Não há outra Viana do lado de lá. Em Viana do Castelo está tudo à
 vista. A luz mostra tudo o que há para ver. É uma cidade verde-branca. 
Verde-rio e verde-mar, mas branca. Em Agosto até o verde mais escuro, que se 
vê nas árvores antigas do Monte de Santa Luzia, parece tornar-se branco
 ao olhar. Até o granito das casas.
 
Mais verdades.
 
No Norte a comida é melhor.
 
O vinho é melhor.
 
O serviço é melhor.
 
Os preços são mais baixos.
 
Não é difícil entrar ao calhas numa taberna, comer muito bem e pagar uma 
ninharia.
 
Estas são as verdades do Norte de Portugal.
 
Mas há uma verdade maior.
 
É que só o Norte existe. O Sul não existe.
 
As partes mais bonitas de Portugal, o Alentejo, os Açores, a Madeira, 
Lisboa, et caetera, existem sozinhas. O Sul é solto. Não se junta.
 
Não se diz que se é do Sul como se diz que se é do Norte. 
 
No Norte dizem-se e orgulham-se de se dizer nortenhos. Quem é que se 
identifica como sulista?
 
No Norte, as pessoas falam mais no Norte do que todos os portugueses juntos 
falam de Portugal inteiro.
 
Os nortenhos não falam do Norte como se o Norte fosse um segundo país. 
 
Não haja enganos.
 
Não falam do Norte para separá-lo de Portugal. 
 
Falam do Norte apenas para separá-lo do resto de Portugal. 
 
Para um nortenho, há o Norte e há o Resto. É a soma de um e de outro que 
constitui Portugal.
 
Mas o Norte é onde Portugal começa.
 
Depois do Norte, Portugal limita-se a continuar, a correr por ali abaixo.
 
Deus nos livre, mas se se perdesse o resto do país e só ficasse o Norte, 
Portugal continuaria a existir. Como país inteiro. Pátria mesmo, por muito
 pequenina. No Norte.
 
Em contrapartida, sem o Norte, Portugal seria uma mera região da Europa. 
Mais ou menos peninsular, ou insular. 
 
É esta a verdade.
 
Lisboa é bonita e estranha mas é apenas uma cidade. O Alentejo é especial 
mas ibérico, a Madeira é encantadora mas inglesa e os Açores são um caso à
 parte. Em qualquer caso, os lisboetas não falam nem no Centro nem no Sul - 
falam em Lisboa. Os alentejanos nem sequer falam do Algarve - falam do
 Alentejo. As ilhas falam em si mesmas e naquela entidade incompreensível a 
que chamam, qual hipermercado de mil misturadas, Continente. 
 
No Norte, Portugal tira de si a sua ideia e ganha corpo. Está muito 
estragado, mas é um estragado português, semi-arrependido, como quem não
 quer a coisa. 
 
O Norte cheira a dinheiro e a alecrim. 
 
O asseio não é asséptico - cheira a cunhas, a conhecimentos e a arranjinho. 
Tem esse defeito e essa verdade.
 
Em contrapartida, a conservação fantástica de (algum) Alentejo é impecável, 
porque os alentejanos são mais frios e conservadores (menos portugueses)
 nessas coisas.
 
O Norte é feminino.
 
O Minho é uma menina. Tem a doçura agreste, a timidez insolente da mulher 
portuguesa. Como um brinco doirado que luz numa orelha pequenina, o Norte dá 
nas vistas sem se dar por isso.
 
As raparigas do Norte têm belezas perigosas, olhos verdes-impossíveis, 
daqueles em que os versos, desde o dia em que nascem, se põem a escrever-se 
sozinhos.
 
Têm o ar de quem pertence a si própria. Andam de mãos nas ancas. Olham de 
frente. Pensam em tudo e dizem tudo o que pensam. Confiam, mas não dão 
confiança. Olho para as raparigas do meu país e acho-as bonitas e honradas, 
graciosas sem estarem para brincadeiras, bonitas sem serem belas, erguidas
 pelo nariz, seguras pelo queixo, aprumadas, mas sem vaidade. Acho-as 
verdadeiras. Acredito nelas. Gosto da vergonha delas, da maneira como coram 
quando se lhes fala e da maneira como podem puxar de um estalo ou de uma 
panela, quando se lhes falta ao respeito. Gosto das pequeninas, com o cabelo
 puxado atrás das orelhas, e das velhas, de carrapito perfeito, que têm os 
olhos endurecidos de quem passou a vida a cuidar dos outros. Gosto dos 
brincos, dos sapatos, das saias. Gosto das burguesas, vestidas à maneira, de 
braço enlaçado nos homens. Fazem-me todas medo, na maneira calada como 
conduzem as cerimónias e os maridos, mas gosto delas.
 
São mulheres que possuem; são mulheres que pertencem. As mulheres do Norte 
deveriam mandar neste país. Têm o ar de que sabem o que estão a fazer. Em 
Viana, durante as festas, são as senhoras em toda a parte. Numa procissão, 
numa barraca de feira, numa taberna, são elas que decidem silenciosamente.
 
Trabalham três vezes mais que os homens e não lhes dão importância especial. 
 
Só descomposturas, e mimos, e carinhos. 
 
O Norte é a nossa verdade. 
 
Ao princípio irritava-me que todos os nortenhos tivessem tanto orgulho no 
Norte, porque me parecia que o orgulho era aleatório. Gostavam do Norte só 
porque eram do Norte. Assim também eu. Ansiava por encontrar um nortenho que 
preferisse Coimbra ou o Algarve, da maneira que eu, lisboeta, prefiro o
 Norte. Afinal, Portugal é um caso muito sério e compete a cada português 
escolher, de cabeça fria e coração quente, os seus pedaços e pormenores. 
Depois percebi.
 
Os nortenhos, antes de nascer, já escolheram. Já nascem escolhidos. Não 
escolhem a terra onde nascem, seja Ponte de Lima ou Amarante, e apesar de as 
defenderem acerrimamente, põem acima dessas terras a terra maior que é o "O 
Norte".
 
Defendem o "Norte" em Portugal como os Portugueses haviam de defender 
Portugal no mundo. Este sacrifício colectivo, em que cada um adia a sua 
pertença particular - o nome da sua terrinha - para poder pertencer a uma 
terra maior, é comovente. 
 
No Porto, dizem que as pessoas de Viana são melhores do que as do Porto. Em 
Viana, dizem que as festas de Viana não são tão autênticas como as de Ponte 
de Lima. Em Ponte de Lima dizem que a vila de Amarante ainda é mais bonita. 
O Norte não tem nome próprio. Se o tem não o diz. Quem sabe se é mais Minho
 ou Trás-os- Montes, se é litoral ou interior, português ou galego? Parece 
vago. Mas não é. Basta olhar para aquelas caras e para aquelas casas, para
 as árvores, para os muros, ouvir aquelas vozes, sentir aquelas mãos em cima 
de nós, com a terra a tremer de tanto tambor e o céu em fogo, para 
adivinhar. 
 
O nome do Norte é Portugal. Portugal, como nome de terra, como nome de nós 
todos, é um nome do Norte. Não é só o nome do Porto. É a maneira que têm e
 dizer "Portugal" e "Portugueses". No Norte dizem-no a toda a hora, com a 
maior das naturalidades. Sem complexos e sem patrioteirismos. Como se fosse
 só um nome. Como "Norte". Como se fosse assim que chamassem uns pelos 
outros. Porque é que não é assim que nos chamamos todos?».

 

publicado por escrevinhando às 19:12
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2 comentários:
De Joana a 30 de Março de 2007 às 23:46
Zé:

Que engraçado, entrei e vi o teu blog.

Também tenho um sobre poesia e prosa. Vou-te adicionar lá.

Mas não era nada disso que te queria dizer.
E então? Ainda não viste a minha sugestão gastronómica das sandes de presunto da "badalhoca"? Se fores lá, não podes perguntar.
Então aqui é onde se comem as sandes da " badalhoca?" A mulher racha-te ao meio tens que dizer o nome do estabelecimento comercial. "Servir bem e bem servir dá saúde e faz sorrir"

Até breve...



De Anónimo a 1 de Março de 2009 às 08:42
vim aqui parar "ao acaso", sou do porto, mas adoro mesmo o norte e só me dei conta que o que escreveu é verdade (ipsis verbis) depois de o ler... fantástico!
muitos parabéns :-)

já agora, quando for a viana do castelo, passe na tasquinha "casa primavera" para petiscar uns mariscos ao lado dos pescadores. vale muito a pena!! só lamento que esteja fechada ao domingo senão já sei onde ia lanchar/jantar.


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