Quinta-feira, 12 de Abril de 2007

Um banco de madeira

 

 

Um banco de madeira

 

Pelo menos uma vez na vida, seja onde for, seja como for, faça isso.

 

Heloísa Seixas

 

 

O cenário era um casarão do início do século no Bairro do Botafogo, no Rio de Janeiro. Tinha tectos altos, janelas enormes de pinho do Brasil e soalho de tábuas corridas. Era uma noite de festa: a inauguração de um estúdio de dança. Estavamos em julho de 1993, e o Inverno no Rio de Janeiro estava agradávelmente frio. No salão, de quase cem metros quadrados, cercado de janelões e espelhos, a multidão amontoava-se em animada conversa. A música estava alta, como as vozes em todas as rodas que se formavam. Mas, de repente, as vozes baixaram. A música e as vozes foram baixando, baixando, até se tornarem pouco mais do que um murmúrio, enquanto as pessoas se voltavam, quase sem se aperceberem, para uma porta do fundo do salão. Todos os olhares convergeram para aquele ponto.

Ali, emoldurado pela porta, estava um jovem. Era um rapaz como qualquer outro, como tantos que pelo salão se espalhavam, participando da festa. No entanto, duas coisas o diferênciavam dos demais. A primeira era o olhar. Estava sério, o rosto era uma máscara inexpressiva, sem rugas, fixava as pessoas à sua volta com uma intensidade peculiar, os olhos escuros a saltarem de um convidado para outro, cravando-se implacávelmente neles. A segunda coisa era o banquinho. Ele trazia um pequeno banco de madeira, um objecto sem dúvida incomum de se levar naquela hora e naquele lugar. Logo deu um passo à frente. E lentamente, sem nunca deixar de olhar as pessoas nos olhos, caminhou para dentro do salão. Atrás dele vieram outros. Rapazes e raparigas. Todos sérios, todos com um olhar imtenso – e cada um levando nas mãos  um banquinho de madeira. Espalharam-se pelo salão, agora mergulhado em silêncio. Alguém tinha desligado a música, e todos aguardavam em silêncio curioso. Os jovens continuavam mudos, embora os seus olhares parecessem cada vez mais inquietos, saltando de uma pessoa para outra.

De repente, num movimento vigoroso, o primeiro jovem colocou no chão o seu banquinho, subindo nele em seguida. E pairando alguns centimetros acima do resto do salão, começou a falar.

Era um texto teatral, que depois se soube ser uma  colagem de várias  peças. Falava sobre as necessidades que o ser humano tem de se expressar através da arte. Sobre a tentativa de permanecer, de deixar um rasto sobre a terra, gravado em tintas, letras, sons ou o que for. Terminado o seu trecho, o rapaz calou-se e desceu do banco, voltando a segurá-lo nas mãos. E imediatamente outro jovem colocou o seu próprio banco no chão, subiu para ele e continuou  do ponto onde o colega parara. Depois dele, uma jovem. E em seguida um rapaz. Todos a falarem dessa busca incessante de expressão – e de como isso é saudável, heróico e belo.

Incrível que a colagem dos textos tivesse sido feita – como ficariamos a saber mais tarde – pelo director de teatro Márcio

Viana, que morreria quase três anos depois, aos 47 anos. Ironicamente, aquele belo espectáculo tinha sido criado por um homem que estava com os dias contados. Mas, afinal, pensando bem, quem de nós não está?

O facto é que na festa nós, os convidados, estávamos encantados pela récita dos jovens, envolvidos pela força com que diziam o texto e pela verdade que havia naquelas palavras. Até que, num dado momento, o último dos jovens subiu ao seu banquinho para a fala final. Com os olhos brilhantes e com gravidade, ele disse:

«É através da arte que a dor se transforma em luz. É ainda através da arte que muitos encontram o divino. Por isso, cada um de nós deve tentar buscar o nosso dom, a nossa própria forma de expressão. Devemos todos, pelo menos uma vez na vida, seja como e de que forma for, arranjar coragem e subir ao nosso próprio banquinho.»

Mal tinha terminado a frase e, para surpresa de todos, os primeiros acordes de uma música encheram o salão. E todos nós, o salão inteiro, alguns com desconhecidos, alguns até sózinhos, nos vimos felizes a obedecer àquelas ordens. Começamos todos a dançar.

 

In Selecções do Reader’s Digest

                                                                                                                         Janeiro de 2000  pág: 81

publicado por escrevinhando às 21:36
link do post | comentar | favorito
|
Sexta-feira, 6 de Abril de 2007

O Rosto de Deus

 

O Rosto de Deus

 

 A cena passava-se num pequeno infantário, numa qualquer manhã, igual a muitas manhãs das nossas vidas.

Tocou a sineta para as crianças entrarem nas suas salas de aula e dar início aos habituais trabalhos escolares, não sem que antes houvesse a natural correria e atropelos, próprios da idade infantil pela qual todos tivemos, naturalmente, que passar.

Entretanto, numa das salas de aula, a educadora distribuiu pelas crianças, ordeiramente sentadas nos seus devidos lugares em volta da mesa de trabalho, uma folha de papel, lápis de cera e outros, pedindo às crianças que, como em muitas outras ocasiões análogas, com o material ora distribuído, dessem azo à sua imaginação e criassem algo no papel que lhes estivesse a ocupar o Pensamento.

As crianças assim o fizeram, umas mais rebuscadas que outras, outras mais rápidas – para ir mais cedo para o recreio! Ao fim de algum tempo, a professora notou que uma das crianças, uma menina, ainda não fizera nada de nada na folha de papel que lhe fora entregue, mas nem por isso tirava os olhos da folha.

Nisto, a educadora diz que o tempo destinado ao desenho estava quase a terminar e que dentro em breve teriam de entregar o trabalho concluído.

Vendo que a menina, que ainda nada havia feito, não começara a fazer nada de nada na folha perguntou-lhe:

- Raquel, tu ainda não fizeste nada…o que se passa…?

A Raquel, então, levanta os olhos do papel e diz para a educadora:

- Professora…eu ainda não fiz o meu desenho, mas fique tranquila, pois eu vou desenhar o Rosto de Deus.

A educadora, embora embaraçada com a resposta da criança, continuou a sua ronda pela sala, sempre olhando para a menina pelo canto do olho,  por entre as crianças que já haviam terminado o seu trabalho recolhendo as folhas já desenhadas e os lápis usados para esse fim.

Nisto, no silêncio da sala, ouve-se a voz, soando a Felicidade, da Raquel a dizer:

- Professora! Aqui tem o desenho do Rosto de Deus!

A professora, atónita com a rapidez e determinação da menina, olha para a folha de papel e apenas vê um círculo e nada mais; mas, acto contínuo, na face daquela menina ela viu, finalmente, o Rosto de Deus!

 

 

 

José Pedro Amaral

22.08.2005

publicado por escrevinhando às 22:39
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Março 2010

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
11
12
13

14
15
16
17
18
19
20

21
22
23
24
25
26
27

28
29
30


.posts recentes

. Você Já Amou Tanto Assim!

. Verdades Inconvenientes

. Magos e Anjos, a Verdade ...

. Sabedoria de um Mestre

. Recordar é Viver

. Jesus....

. Poema de Ano Novo

. O que fará sentido, afina...

. O Pedreiro

. O Verdadeiro Sentido da V...

.arquivos

. Março 2010

. Novembro 2009

. Agosto 2009

. Junho 2009

. Janeiro 2009

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

blogs SAPO

.subscrever feeds